Guardanapo

Entretenho-me com o pedaço de papel entre os dedos, distraída, e tenciono limpar o borrão de rouge no rosto enquanto não se aquieta o tráfego da via.

Ouço um tumulto de vozes que aos poucos se aproxima; a meu lado estaca-se um grupo de estudantes barulhentos. São tão risonhos e vistosos os rapazes que não impeço meu olhar de pousar sobre seu júbilo. Derrama-se a seu redor algo de feliz e leve, verão repentino, clamor de colegiais em recesso que perdem o fôlego ao descobrir o tempo livre. Vejo que alçam voo aquelas aves e também acordo meu passo. A pintura desfigurada continua a manchar-me as maçãs do rosto, os moços misturam-se a outros tantos transeuntes e outra vez entrego minha consciência a este familiar estado de fantasia em que tudo é enxergue, mas nada realmente visto. Minha mente, ocupada por visões além da agitação das calçadas, atém-se a considerações não muito claras.

Há muito tento reproduzir a demonstração de mocidade que acabara de presenciar. Vez ou outra, em presença de gente amiga, acomete-me um acesso de risos sinceros; gargalhadas das mais saborosas que fazem tremer o corpo e lacrimar os olhos. Principia o vício; brilha à frente a juventude e a beleza que me prometeram. Há divertidos rascunhos de rebeldia, reuniões e galantearia em minha imaginação, mas recorro satisfeita a quadros inventados de jardins, construções coloniais, roçagar de tecidos, revoluções silenciosas. O lirismo latente em tão doce e ensolarada quietude foi-me apresentado.  O silêncio, as contracapas, os cantos de folha, desprezados por minha cegueira, reluziram quando ele abriu-me os olhos.

Ele! – Grito intimamente. É dele todo papel, superfície, pena e tinteiro. Não limpo a face, mas pressiono os lábios num vermelho beijo de gratidão transferido ao guardanapo. Por um instante dedico-lhe minha juventude silenciosa e já saudosa de sua poesia, mais exuberante que o riso dos rapazes. Com frequência penso em si e anseio contar-lhe tudo o que acontece, tudo o que vejo, tudo o que sinto. Lembro-me dos versos que ganhei e ensaio o sorriso ruborizado de quem corresponde com modesta prosa. Quisera eu escrever-lhe com coerência, entregar-lhe a clara efusão de minha estima.

Sua imagem representa tudo o que há de agradável. Tenho-o como a palestra amiga no alpendre, o burburinho das crianças reunidas; as notas claras e simples da donzela ao piano, a confissão sussurrada dos enamorados; a infantil troca de olhares dos irmãos travessos, os pingos salgados que molham os reencontros na estação; a saia que se arrasta com formosura, os casacos pendurados no regresso a casa; o suave embate entre talheres e louças na ceia familiar, as taças que brindam promessas duradouras; o banho no rio a implorar que não caia a noite, o som da chuva no telhado; a quadrinha apaixonada, as cartas relidas; o lusco-fusco da aurora promissora, a luz vespertina que atravessa as brancas cortinas de renda; as rodas do tílburi em choque com as pedras da calçada, o galope que leva à janela um coração ansioso.

Mas meu poeta sabe tão bem trazer a calmaria como desencadear comovente caos. Surge-me como a discussão acalorada dos estudantes, o choro dos pequeninos que disputam um peão; a grandiosidade da orquestra, os desentendimentos apaixonados; os olhares orgulhosos que se encontram e recuam, as lágrimas de irritação dos que se despedem após a desavença; o passo sobressaltado que magoa o piso, as vestes eliminadas com entusiasmada urgência; o desjejum turbulento, o bibelô que acerta seu alvo ao espatifar-se junto à parede; a queda d’água a causar medo, o temporal que castiga os vergéis; a epopeia heroica, o poema barroco; o coche que parte com consciências angustiadas, o trotar rumo à batalha.

Em meio à agradável confusão de meus pensamentos, alheios a tantos rostos e sons, chego a meu destino. Bem poderia ser o mundo em que nada separa-nos, não raro direção tomada em minhas viagens. Tudo em redor é gracioso e gentil. Posso ver meu amigo como sossego e agitação, conhecer seu silêncio e sua voz; ele é figura tão alegre quanto os mancebos que hoje vi. Não me é necessária tanta prosa para suscitar-lhe – haverá sempre espaço no pequenino guardanapo que recebeu meus lábios para todas as odes, baladas, e sonetos alexandrinos que são meu apreço por ti.

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Comentários

Bela tua prosa, a levei de fio a pavio, o que é raro.

Parabéns descrição fantástica de tudo quanto nos rodeia, do labirinto que é viver o dia a dia, ..gostei imenso.

Obrigada, Natalia (:
E tudo o que nos rodeia, é de um jeito ou de outro fantástico... as pessoas ou mesmo as coisas. Deveríamos abrir mais os olhos.