aqui desta janela

Aqui desta janela
Que fica no primeiro andar
Vejo passar o andrajoso,
Coxeando e estendendo a mão
Para que lhe concedam uma esmola
Mostrando os dentes podres que lhe restam
Com um sorriso aberto

E na esquina do lado esquerdo
A Dona Rosa que vende um ramo de flores
E dá outro para que não lhe sobre
Para que não morram nas suas mãos

Em frente, sentada na esplanada
Está a Lola prostituta
À espera do próximo cliente
Com as meias rasgadas
E o batom cor de sangue esborratado
Porque vê mal e prefere assim
Para não ver bem quem a fode
Basta sentir as notas nos dedos
Para mandar todas as semanas
Para a mãe que toma conta da filha

E na esquina do lado direito
A "Nelita" transsexual exibe as mamas falsas
E as meias de rede para esconder os músculos
A cabeleira vermelha brilha como fogo
E o cigarro esconde o nervosismo
Antes de actuar no palco do bar ali ao lado

O gato, o Chiquinho vadio,
Que pertence a todos e a nenhum
Veio juntar-se a mim no parapeito da janela
Ronronando e a pedir-me comida
Olhando-me com ar comiserativo

Começo a sentir pena de mim próprio
Todos têm uma motivação
Todos lutam pela sobrevivência
E eu fico aqui qual ladrão de almas
Espiando todos os gestos, todos os dramas
Todas as dores e todos os sorrisos
De quem nada tem e que por uma estranha razão
Se agarram à vida com ânsia

E eu aqui só a desejar a morte
Como uma bênção para não pensar nos males do mundo

Não sei quem sou
Não sei quem sou

Provavelmente mais um inútil
Que irá morrer com uma caneta na mão
E com resmas de histórias por publicar

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