Parte 3

 

"Não sou nada.

Nunca serei nada.

Não posso querer ser nada.

À parte disso, tenho em mim todos os sonhos do mundo."

Álvaro de Campos

 

   ""E por que não?", perguntou-se a ela própria, ainda no balanço do carro pela estrada. Procurou-se no espelho retrovisor, mas não se quis ver. Pensou em ligar a alguém, procurar uma voz amiga; tinha uma vontade ofegante de partilhar esta ideia suicida de se reaproximar, mas esse alguém ou está ali ou acolá, de mal com o presente ou até desapegado do corpo. Ninguém.

    Chegada a casa, foi tirando os sapatos vermelhos envernizados de salto agulha pelo corredor fora até à sala, atirou com a mala pesada para o cadeirão e o seu corpo contra o sofá. Olhou em volta. Levantou-se e começou a marchar pelas divisões da casa, de telemóvel na mão direita com o número dele no ecrã e o polegar no botão 'ligar'. Não conseguiu.     

    Escreveu, então, uma mensagem, carregando nas teclas trémula pela euforia da saudade que a consumia:  'mensagem enviada'. O tempo passou e o telefone permanecia inanimado, em cima da pequena mesa de cerejeira da sala de estar. Passaram meses pelos minutos de espera, até que o tão venerado objeto do momento apita: é ele. É ele e as suas palavras vagas, que a escravizam como um encantamento: "A que horas?", "Agora.".

    Na escuridão, sob um solitário lampião, eis que ela o vê.

    Estacionou sob as pesadas chicotadas da chuva e ele entrou. Ela mirava o vazio da noite, de palmas transpiradas, lábios mordiscados e de peito acelerado, enquanto ele colocava a mão na sua coxa mármorea e a apertava num pavor inquieto, como se expelindo algo do seu âmago. Ela deixou-se acariciar, silenciosa.    

    A mão subiu pela pele de loiros pelos, empurrando as cores da saia de tamanho médio. Ela agarrou-o pelo pescoço, puxando-o para si os saudosos lábios dele. No ar, flutuavam as memórias no vazio da mudez das palavras e apalpavam-se os suspiros viscerais. Batiam os segundos no relógio já tirado e atirado para o chão do carro e batiam também os corações presos nos corpos quentes, esfregados um no outro. Nada havia a dizer; as bocas apenas percorriam a saudade dum tempo sem tempo que os unia escrupulosamente nos momentos em que se deixavam desejar. Nada é dito. O único som é o dos poros sufocados de prazer, esmorecidos pela pele dos corpos banhados por suores de cheiros doces na desordem dos sentidos. E, nesse instante de trégua, mergulharam nas íntimas vontades do outro, confusos em ecos repetidos e ampliados pela altitude da noite.     

    Ali, de peles distendidas, cansadas e arrepiadas pelo suor frio que escorre ao ponto final da noite, a respiração que abranda depois de abafada por densos silêncios. Sem se olharem, não desviavam a atenção dos odores quase esquecidos pela distância no tempo e que agora pendiam no ar fechado do carro parado.        Pelas veias corria, efervescente, o sangue repetidamente exposto, coagulado, reanimado e morto.

   Vestiram-se com calma, no meio da atrapalhação que os rodeava. Ambos de dor surda na alma, na demora do despertar para a aceleração das suas vidas. Ela virada para ele, de coração moído nas mãos ensanguentadas; ele com alucinações que lhe chegavam aos lábios num murmúrio: "Amo-te."." 

 

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